As
peças em faiança azul e branca, antigas, carcomidas pelo tempo, são um fascínio
para todos nós, amantes desta arte decorativa.
E
quando a sua decoração é exuberante, com motivo conhecido ou não e com fabrico
desconhecido, por não ter qualquer marca ou identificação, colocam-nos a tentar
desvendar o mesmo, pelo que ainda maior é o fascínio por essas peças.
Apresentamos
hoje uma interessantíssima travessa, em Faiança Azul e Branca, muito antiga, já
um pouco “cansada” pelos anos, mas com um motivo que conseguimos identificar “ROSELLE”.
Travessa
em faiança portuguesa do final Século XIX, ou início do XX. Peça moldada, de
formato oval, recortada, monocroma e vidrada. Apresenta decoração monocromada a
azul e branco: paisagem de um casario (chalet) com arvoredo e o que se presume
ser um lago, em decoração esponjada, estampilhada e a traço à mão livre a azul.
No
limite da aba possui um filete grosso, em azul forte, feito à mão pelo artista,
denotando-se a sua imperfeição e traço não firme, o qual é secundado, para o
interior, por uma calota esponjada num azul mais claro.
Na
continuação da decoração da aba em direcção ao covo da travessa há uma cercadura
de cornucópias, que constituem um conjunto decorativo repetitivo e aplicado por
estampilhagem – com recurso a uma chapa recortada, num tom forte de azul.
O
covo da travessa encontra-se praticamente todo preenchido: à direita, em
desenho livre, com partes estampilhadas e esponjadas, o chalet, de vários
pisos, com cobertura triangular, de duas águas, de pendentes bastante
inclinadas, com duas chaminés decorativas e um vasto arvoredo envolvente; ao
centro uma vasta área esponjada que será, provavelmente a representação de um
lago, com umas nuvens, altas, no horizonte; e à esquerda, um imponente
arvoredo, com trancos e ramos estampilhados, em tom de azul forte e as ramagens
esponjadas, algumas com recorte a pincel, em tons de azul mais forte.
Quer
no covo da travessa, quer no seu tardoz, denotam-se as três falhas do vidrado
devido à aplicação da trempe, quando a peça foi cozer o vidrado.
No
tardoz denota-se um esmalte leitoso, por vezes irregular e onde se realça tonalidades
azuis, que parecem ter trespassado da decoração da aba e do covo.
Trata-se
de uma decoração desenvolvida em Portugal, como interpretação livre e popular,
ao gosto do artista e inspirada no motivo inglês, padrão "Roselle",
"que é composto por um romântico chalet e uma árvore, que ladeiam um
lago, onde se avista ao longe um castelo. Roselle é o nome de uma localidade
italiana no Sul de Florença, que era um ponto de escala do chamado Grand
Tour", tal como refere o Luís Montalvão, no seu blogue http://velhariasdoluis.blogspot.pt/;
(8).
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(Caneca inglesa com padrão "Roselle", fabrico da John Meir & Son, apresentada na fonte 8) |
Igualmente
na mesma fonte (8), é afirmado que: "Em Portugal, segundo aprendi com
o mercador
veneziano, O Roselle foi copiado pela Fábrica de Massarelos. Foi também
adaptado de forma popular por um fabricante que algumas leiloeiras
identificam como Vilar de Mouros e outras por loiça de Coimbra.", o
que em certa medida vem confirmar o padrão da nossa travessa.
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(Travessa em faiança nacional com motivo inspirado no padrão inglês "Roselle", exibida na fonte 8) |
O
motivo inglês “Roselle” foi
produzido pelo fabricante JOHN MEIR & SON, na segunda metade do século XIX,
período durante o qual a faiança inglesa dominou o mercado europeu pelo que os
seus motivos serviram de inspiração aos fabricantes de todo o continente, e
como não podia deixar de ser, a Portugal, reforçada pela “aliança” existente.
Fábricas
como Alcântara, Massarelos e outras do Norte, não identificadas, produziram
faianças com este motivo. A Fábrica de Massarelos produziu muitas peças com
este motivo, por estampagem, das quais várias estão reproduzidas na fonte (14).
Para
melhor identificação do motivo apresentamos algumas imagens de peças inglesas,
com este motivo “Roselle”.
Por outro lado, atribui-se com frequência o
fabrico de faianças com este motivo a “Vilar de Mouros”, se for em tonalidades
verdes e a “Coimbra” ou mesmo “Alcobaça”, se doutras tonalidades.
A
nossa travessa não suscita dúvidas, será certamente fabrico de uma das fábricas
do Norte, eventualmente próximo de Porto, mas que não conseguimos identificar.
Será
uma imitação da decoração de “Miragaia” ? ou de “Santo António do Vale da Piedade”
?
A
incógnita mantém-se, mas a peça em faiança Azul e Branca, vale por si só, mesmo
sem se conhecer o seu fabrico.
FONTES:
1) – “Faiança Portuguesa Séculos
XVIII-XIX”, Colecção Pereira de Sampaio, Editores ACD, 2008.
2) – “Cerâmica Portuguesa e Outros
Estudos”, de José Queirós, Organização, Apresentação, Notas e Adenda
Iconográfica de José Manuel Garcia e Orlando da Rocha Pinto, Editorial
Presença, 3ª Edição, Lisboa, 1987.
3) – “Faiança Portuguesa – Seculos
XVIII-XIX”, de Arthur de Sandão, Livraria Civilização, 2º Volume, Barcelos,
1985.
4) – “Cerâmica Artística Portuense dos
Séculos XVIII e XIX”, Vasco Valente, Livraria Fernando Machado – Porto,
5) – “Cerâmica Portuense – Evolução
Empresarial e Estruturas Edificadas”, Teresa Soeiro, Jorge Fernandes Lacerda,
Silvestre Lacerda, Joaquim Oliveira, Edição Portugália, Nova série, volume XVI,
1995.
6) – “Fábrica de Louça de Miragaia”, Museu
Nacional Soares dos Reis, Edição IMC, Lisboa, 2008.
11) – “Fábrica de Massarelos - Porto, 1763 – 1936”, Coordenação de
Mónica Baldaque, Teresa Pereira Viana e Margarida Rebelo Correia, edição do Museu
Nacional Soares dos Reis, 1998.
14)
– “A Fábrica de Louça de Massarelos – Contributos para a caracterização de uma
unidade fabril pioneira”. Volume 1, dissertação de Mestrado em Estudos do
Património, de Armando Octaviano Palma de Araújo, Universidade Aberta, Lisboa,
2012.