1. Em jeito de preâmbulo:
Já
diversas peças de faiança, de fabrico da Fabrica de Louça de Sacavém, nos
passaram pelas mãos e em apreciação, com um curioso carimbo verde circular com
as indicações “S. J. BENCHAYA”, “FABRIQUÉ AU PORTUGAL” e “CASA BLANCA”.
Correspondem
a peças produzidas em Portugal e que foram importadas para comercialização em
Marrocos, pelo importador S. J. Benchaya.
Agora,
na presença, de mais duas, uma uma tigela gomada, de decoração manual e
simples, a duas tonalidades, e de um prato de covo acentuado, com decoração
policromática, com um arranjo floral e um trecho de campo com uma esbelta ave,
foi o mote para esta análise, da importância do marroquino J. S. Benchaya na
Faiança Portuguesa.
2. Procurando
enquadramento:
As
décadas de 30 e 40 do século passado corresponderam a uma fase de grande expansão
da Fábrica de Louça de Sacavém, pois à época era reconhecida a qualidade dos
produtos que fabricada.
Tanto
pobres como ricos, ambos tinham e utilizavam peças da Fábrica de Louça de
Sacavém, e nas ruas, nos prédios e nos estabelecimentos, quer fossem talhos,
padarias, leitarias, farmácias, tabernas ou outros; todos utilizavam materiais
e peças produzidas pela Fábrica de Louça de Sacavém.
O
mercado era vasto, a nível nacional; para além dos particulares eram os hotéis
do continente, mas também os da Madeira, Açores, Angola e Moçambique.
Havia também destino certo para o norte de
África – Casa Blanca; com a Casa S. J. Benchaya; mas até para o Brasil foi
exportada louça, tal como para todo o mundo e em especial para as colónias
inglesas, com as embalagens do chá Lipton.
Na
verdade, na década de 30 e mesma na de 40, do século passado, Marrocos era o
principal mercado de exportação para a faiança nacional, em especial a da
Fábrica de Louça de Sacavém, com quem tinha estabelecido um protocolo
comercial.
Digamos
que era o distribuidor da louça da Fábrica de Louça de Sacavém em Marrocos.
Refira-se que habitualmente essas peças não possuíam qualquer marca
identificando o fabrico ou possuíam uma marca, discreta, incisiva na pasta que
identificava a Fábrica de Louça de Sacavém, uma indicação alfanumérica, “GO52”,
no prato que apresentamos, e “SACAVEM”.
Foram
produzidos, cremos; serviços, bem como peças avulsas, como pratos, malgas,
tigelas, saladeiras, … em que a decoração, variada, em motivos e em cores, mas
dedicada a esse mercado.
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(Malga antiga com carimbo S. J. Benchaya - Fonte Internet - CustoJusto) |
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(Malga antiga com carimbo S. J. Benchaya - Fonte Internet - CustoJusto) |
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(Carimbo S. J. Benchaya em malga antiga - Fonte Internet - CustoJusto) |
Contudo,
algumas dessas peças foram comercializadas em Portugal, por razões que não
conseguimos ainda desvendar, sendo que essas peças se encontram, ainda com
alguma frequência em casas antigas, principalmente a sul do país, em especial
no Alentejo e no Algarve.
O
citado carimbo verde só era aplicado nessas que se destinavam exclusivamente ao
mercado marroquino, para a casa comercial de S. J. Benchaya, em Casa Blanca,
desconhecendo-se assim qual a justificação para a sua comercialização à época
no mercado nacional a sul. Eventualmente sobras de encomendas, mas por que
razão só comercializadas no sul do país?
3. S. J. Benchaya, quem era?
Consta que o marroquino S. J. Benchaya era um industrial judeu
estabelecido na cidade de Casa Blanca, com uma ampla visão para o negócio e
consequentemente para a possibilidade de enriquecer.
À época, estamos a falar de finais da década de 20, década de 30 3
inícios da década de 40, do século passado, o mesmo apercebeu-se da procura de
peças, objectos e utensílios, por parte das classes locais mais privilegiadas ou
com mais possibilidades económicas, dentro de um padrão em consonância com os
gostos ou tendências europeias, à época, mas que de alguma forma fossem ao
encontro da estética nacional – em suma de peças menos tradicionais, dentro do
gosto marroquino, mas com as influências europeias à época.
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(Malga - F.L.S. para S. J. Benchaya - Fonte 1) |
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(Carimbo da Malga - F.L.S. para S. J. Benchaya - Fonte 1) |
Uma das procuras era as peças de faiança, mas que em Marrocos não se
fabricava este tipo de louça, por falta de matéria-prima adequada, pelo que S.
J. Benchaya, viu nas mesmas uma oportunidade de negócio e de enriquecimento,
tendo por tal facto estabelecido o acordo comercial com a Fábrica de Louça de
Sacavém.
(Prato- F.L.S. para S. J. Benchaya - Fonte 3) |
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(Prato- F.L.S. para S. J. Benchaya - Fonte 3) |
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(Prato- F.L.S. e carimbo S. J. Benchaya - Fonte 3) |
No sentido de obter maior comercialização e de ir ao encontro do gosto
marroquino, à época, S. J. Benchaya cria decorações próprias, originais, ao
gosto e dentro do espírito marroquino, mas simultaneamente com características
de contemporaneidade europeia.
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(Prato Estampado- F.L.S. com carimbo S. J. Benchaya - Fonte 5) |
Crê-se que já no início do Século XX, o eventual pai de S. J. Benchaya;
M. Benchaya, já tinha estabelecido um acordo comercial com a Fábrica de Louça
de Sacavém, para importação de louça utilitária, em faiança, para Marrocos. A
confirmar-se esta situação, S. J. Benchaya, mais não fez que desenvolver o
acordo comercial da sua família com a Fábrica de Louça de Sacavém.
4. E as peças
utilitárias em Marrocos?
Até meados do
Século XIX, em termos de utilização de peças utilitárias, em faiança, porcelana
ou mesmo barro, Marrocos era um país de elevado contraste: a maioria do seu
povo nada utilizava, enquanto as casas e famílias aristocratas usavam
porcelanas da China.
Por outro lado
não havia qualquer produção nacional, mesmo que de louça tradicional, pelo que em
meados desse Século XIX, a partir de 1840, e devido às influências ocidentais,
europeias, Marrocos tornou-se ávida de outro tipo de louça, ocidentalizada,
burguesa, mais sofisticada e de melhor qualidade que a louça tradicional então
produzida e de muito menor custo que a louça do Oriente, o que motivou um
aumento de procura da mesma.
Para fazer
face a esta crescente procura marroquina, algumas fábricas europeias criaram
modelos com decoração “oriental”, para corresponder à mesma. Fábricas, como as
francesas Montereau, Gien e
Sarreguemines, inundaram o mercado marroquino com pratos, taças, tigelas e
outras peças, com decoração de crescentes, luas e estrelas, mas também com a
introdução de motivos mais ocidentais.
Mas a fábrica
inglesa Spode também comercializou
muita louça para Marrocos – digamos foi mais uma das várias fábricas europeias,
que originaram a exportação de milhares de peças de cerâmica destinados para
uso diário para países muçulmanos, situação ocorrida no período, desde por
volta de 1840 até a década de 1930.
Foi pois neste
contexto que surgiu S. J. Benchaya, na intenção de criar uma linha de produção
mais ao gosto marroquino, com padrões que mais se identificassem com a sua
cultura e valores, e rivalizando com os demais exportadores, pelo que optou
pela fabricação dessas peças, em faiança, em Portugal, na Fábrica de Louça de
Sacavém, dando indicações, modelos de decoração, de desenhos e figuras
geométricas ao gosto marroquino e de uma palete de policromia (decoração
geométrica em policromia), também ao gosto do país.
Cremos que
numa primeira fase, S. J. Benchaya, ainda mandou produzir peças, à Fábrica de
Louças de Sacavém, com decoração ao gosto do ocidente ou europeu, para
concorrer em termos comerciais com as produções de outras fábricas europeias,
já citadas e que se encontravam a exportar para Marrocos. Consideramos que o
prato que apresentamos é um exemplo disso.
5. Decoração das peças de S. J.
Benchaya:
As peças com carimbo S. J. Benchaya apresentam uma decoração particular,
pesem embora transmitam alguns traços ocidentais, europeus, mas a gramática
decorativa é mais ecléctica. Há um orientalismo geométrico, notário, pese embora
com ornamentações que se poderão considerar de raiz marroquina, mas sem deixar
de apresentar listas e frisos, algo ao gosto Art Nouveau, da época.
As cores usadas são geralmente fortes e em contraste, e as figuras
geométricas predominam, bem como traços, listas e filetes.
É evidente nestas peças da Fábrica de Louça de Sacavém com carimbo S. J.
Benchaya, entre 1920 e 1940, destinadas à exportação para Casa Blanca –
Marrocos, a tentativa de criar um produto que não fosse pura e simplesmente a
interpretação europeia do design islâmico,
mas em que se procurou criar modelos influenciados pela cerâmica tradicional
marroquina e pela Art Deco Europeia,
à época, tendo como base fortes elementos geométricos, com cores fortes.
No entanto, para um melhor conhecimento das peças fabricadas, da sua forma,
decoração, motivo e cromia, para além da sua apresentação e evolução temporal,
apresentamos um conjunto de imagens das mesmas reproduzidas das fontes citadas.
(Taça monocroma a azul, de flores estilizadas alternadas com reservas contendo motivos reticulados e contas, com carimbo S. J. Benchaya - Fonte 7) |
(Tigela com decoração policroma, com composição geométrica estilizada a azul e a amarelo com carimbo S. J. Benchaya - Fonte 7) |
(Tamborete com decoração policroma, com motivos geométricos estilizados, evidenciando decoração com influência árabe com carimbo S. J. Benchaya - Fonte 7) |
(Prato decorativo, com decoração policroma de composição floral estilizada, deslumbrante e com forte influência árabe com carimbo S. J. Benchaya - Fonte 7) |
Nalgumas peças é perfeitamente notório o que indicámos, ou seja a forma,
decoração e cromia ao encontro do gosto e genuinidade marroquina, ou seja decoração e cromia com influência árabe.
6. Voltando às nossas peças:
A nossa tigela, de formato Meia-cana
possui uma decoração, simples, efectuada manualmente, constituída por dois
filetes finos um na bordadura da boca e outro no covo da base, ambos a preto, e
um filete largo, a azul celeste após o filete da bordadura.
Lateralmente de modo a realçar os gomos, linhas curvas e segmentos de
linha, a preto.
Pese embora de trate de uma peça, provavelmente, do período de fabrico de
1920 a 1940, o formato desta peça só vem referenciada no Catálogo de Formatos
de Loiça Doméstica, da fábrica de Sacavém, de Maio de 1950.
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(Tigela formato meia-cana - F.L.S. - anos 50 - Fonte 1) |
Por outro lado, na Tabela de Preços da Fábrica de Louça de Sacavém de
1932, este formato não vem referenciado, mas sim os formatos Douro, Francez e Liso, provavelmente
porque o mesmo não se destinava ao mercado nacional mas para exportação para Marrocos.
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(Tigela formato meia-cana - F.L.S. - anos 50 - Fonte 1) |
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(Carimbo da Tigela formato meia-cana - F.L.S. - anos 50 - Fonte 1) |
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(Outras tigelas F.L.S. com carimbo S. J. Benchaya - Fonte 4) |
Quanto ao prato, covo de covo acentuado, policromático com interessante
decoração, ao gosto ocidental ou europeu, com duas composições, uma
simplesmente floral e outra com um trecho da natureza onde sobressai uma
interessante e esbelta ave, com uma plumagem deslumbrante. Na bordadura da aba
possui um filete na cor azul.
Prato com formato interessante, com covo acentuado, sopeiro não seria,
pois em Marrocos não de come sopa, e raso não seria igualmente necessário, pois
à época, não comiam conduto, pelo que o prato teria a formato apropriado para
se comer o célebre couscous, eventualmente com carne de ovino, com a
característica gordura a saber ou com aroma a ranço, comida essa simplesmente
com as mãos.
Outras peças similares identificadas na Internet:
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(Carimbo S. J. Benchaya no prato estampado monocroma da F.L.S. com - Fonte 4) |
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(Carimbo S. J. Benchaya em Prato fundo, motivo floral, policroma da F.L.S. - Fonte 1) |
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(Prato fundo F. L. S. com carimbo S. J. Benchaya - Fonte Internet - OLX) |
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( Carimbo S. J. Benchaya em prato fundo F. L.S. - Fonte Internet - OLX) |
7. Carimbos das peças comercializadas por
S. J. Benchaya:
Conhecem-se dois carimbos, diferentes, para as peças que eram comercializadas
por S. J. Benchaya, ambos monocromáticos verdes, mas um com forma elíptica com
as indicações “S. J. BENCHAYA”, superiormente e “CASA BLANCA”, inferiormente,
com um pequeno elemento separador central.
(Marcas específicas da F.LS - S. J. Benchaya.- Fonte 8) |
O outro, mais conhecido e que pensamos ser o último, mais moderno, com
uma forma circular, com a indicação superior a acompanhar o círculo “S.J.BENCHAYA”
e inferiormente “FABRIQUÉ AU PORTUGAL”, e no centro “CASA BLANCA”, com uma
pequena composição geométrica colocada superior e inferiormente à mesma.
(Marcas específicas da F.L.S. - S. J. Benchaya - Fonte 8) |
8. Em laia de conclusão:
Aqui fica um pequeno apontamento sobre a influência e a importância que o
marroquino S. J. Benchaya teve para a faiança portuguesa, especificamente, para
a Fábrica de Louça de Sacavém.
Fontes:
2) – “A Cerâmica
Portuguesa”, de Pinto Basto, João Theodoro Ferreira, Sociedade de Geografia
de Lisboa, Tipografia da Empreêsa do Anuário Comercial, 1935;
6) - “Fábrica de Louça de Sacavém – Contribuição para
o estudo da indústria cerâmica em Portugal 1856-1974” de Ana Paula
Assunção, Coleção História da Arte – Edições INAPA – 1997;
7)
– “150 Anos – 150 Peças – Fábrica de Loiça de Sacavém” – Museu de
Cerâmica de Sacavém – Câmara Municipal de Loures – Março de 2006;
8)
– “Porta aberta às memórias” – Museu de Cerâmica de Sacavém – Câmara
Municipal de Loures – Setembro de 2008;
9)
- “Porta aberta às memórias” – 2ª edição, Museu de Cerâmica de Sacavém –
Câmara Municipal de Loures – Setembro de 2009;
10)
– “Primeiras peças da produção da Fábrica
de Loiça de Sacavém: O Papel do Coleccionador”, de Ana Paula Assunção,
Carlos Pereira e Eugénia Correia, Museu de Cerâmica de Sacavém – Câmara
Municipal de Loures – 2003;
11)
– “História da Fábrica de Loiça de
Sacavém”, de Ana Paula Assunção e Jorge Vasconcelos Aniceto, Museu de
Cerâmica de Sacavém – Câmara Municipal de Loures – Julho de 2000;
12)
– “Roteiro das Reservas”, de Ana Paula
Assunção, Carlos Pereira e Joana Pinto, Museu de Cerâmica de Sacavém – Câmara
Municipal de Loures – 2000 (?);