Como
o prometido é devido aqui vai a segunda “prendinha” para os seguidores do nosso
blogue, nesta época natalícia, de paz, amizade e confraternização.
Uma
interessante tampa de uma terrina, em Faiança Azul e Branca – o que é logo um
fascínio, um deslumbramento!
Será
Miragaia? Se for é uma maravilha! Um êxtase!
Trata-se
de uma tampa de terrina, de forma oval; peça moldada, de encaixe, em cúpula, com
pega elevada, em forma de flor.
A
decoração é pintada e estampilhada a azul, sobre fundo branco, possuindo dos
dois lados da pega uma paisagem tipo oriental, com um edifício composto com
vários corpos, o central, mais alto e mais expressivo, encimado por uma cúpula,
com zimbório e uma haste com um crescente.
Os
restantes edifícios são de menor porte, com telhados de duas águas, enquadrados
em vegetação luxuriante tipo oriental.
O edifício
maior exibe uma asna triangular e sob a mesma, em zona lateral um arco de volta
perfeita.
Sobre
a cúpula, sobrevoam duas aves, graciosamente, parecendo interagirem entre si.
Na
bordadura da tampa um largo filete na cor azul, e no intervalo entre as duas
decorações referidas, um conjunto de cornucópias ou arabescos, espessos e
pintados na cor azul.
Na
restante área da tampa não decorada estão pintadas o que presumimos serem aves,
mas longe, pela sua dimensão relativa.
A pega,
em tipo de flor, encontra-se pintada na cor azul.
Têm-se
vindo a denominar este motivo como “País”, ou “País Miragaia”, sendo que é
inspirado num motivo inglês largamente produzido pela Fábrica Inglesa Herculaneum Pottery.
Peça
interessante, que cativa o olhar de um qualquer – é o fascínio da Faiança Azul
e Branca, mas que sem carimbo ou marca não permite uma identificação concreta
da sua origem fabrico, da fábrica e do período em que foi efectuada.
Apesar
de tudo, parece-nos que poderá ser uma Faiança da Fábrica de Miragaia, do seu
segundo período de fabricação, 1822-1850.
A
assim ser, corresponde ao período de fabricação final de Francisco da Rocha Soares
(pai) e à de seu filho, também Francisco da Rocha Soares, em que a produção de peças
de faiança, de uso doméstico, imitava, com frequência a decoração da louça
inglesa, tão divulgada e valorizada à época.
Eram
elementos preponderantes desta decoração, com paisagens estampilhadas na cor
azul, os conjuntos edificados, sempre um deles com uma cúpula, a presença de um
crescente e o deslumbrante enquadramento de vegetação tipo oriental.
São
sem dúvida, estas semelhanças que nos levam a equacionar que a tampa em apreço
seja Miragaia, pese embora, a decoração não seja “igual” a outras identificadas
e apresentadas em livros que tratam deste tipo de Faianças – mas as semelhanças
são muitas.
Pois
também poderíamos equacionar ser uma Faiança da Fábrica de Santo António de
Vale de Piedade, de Gaia, mas pelo branco da peça e pelos tons de azul inclinamos-nos
mais para que seja de Miragaia.
Contudo,
efectuada uma aturada análise comparativa com peças de Faiança de Miragaia, com
as respectivas marcas, permite-nos identificar as seguintes diferenças:
- na presente peça a cúpula é central,
nas peças de Miragaia geralmente localiza-se à direita do conjunto edificado;
- nesta peça o crescente está na haste
sobre a cúpula, nas peças de Miragaia, está sobre outro edifício que não possui
cúpula, mas geralmente uma torre;
- a asna triangular localiza-se sob a
cúpula, na nossa peça, nas peças Miragaia, localiza-se num edifício lateral à
cúpula,
- os edifícios de menor porte, à
esquerda do da cúpula, na nossa peça possuem duas ordens de fenestração, nas
peças de Miragaia possuem quatro ou cinco ordens (pisos);
- na nossa peça, os telhados dos edifícios
de menor porte, à esquerda do da cúpula, evidenciam coberturas de duas águas,
nos das peças de Miragaia, tal facto não é evidente e por vezes evidenciam
quatro águas ou mesmo uma torre;
- todas as peças de Miragaia rematam
inferiormente com uma palma, em leque, a nossa peça apresenta somente uma
vegetação rasteira, com um ligeiro esponjado, para além da qual se avistam os edifícios;
- as peças de Miragaia exibem todas uma
palmeira elevada, geralmente ao lado e superiormente à cúpula, a nossa peça não
apresenta a palmeira mas árvores de outra espécie;
- a nossa peça, sob o edifício da
cúpula e no seu plano anterior exibe um arco de volta perfeita, e em todas as
peças de Miragaia essa situação não ocorre, sendo exibido o que nos parece um
relevo ou obstáculo orográfico irregular;
- o filete de bordadura, azul, que apresenta
a nossa tampa de terrina, não é habitual aparecer nas peças classificadas como
de Miragaia, conforme marca ou carimbo que possuam;
- os arabescos ou cornucópias que a
nossa tampa possui, também não identificamos em peças de Miragaia…
Então
a nossa peça em Faiança Azul e Branca não é de Miragaia, que pena! De que
fábrica será?
Mas
é linda.
Aqui
fica a “prendinha” para todos os seguidores deste blogue ou para os bem-vindos
visitantes!
Comentário de 06.04.2015:
No seguimento de comentário de Luís Montalvão, do blog http://velhariasdoluis.blogspot.pt/
a nossa tampa de terrina é mais uma das muitas peças inspiradas no motivo "País" ou "País de Miragaia", mas que muito provavelmente, tal como já tínhamos concluído, não será fabrico de Miragaia, mas mais uma imitação.
Na Fonte 7, é apresentada mais uma imitação de Miragaia, em que é afirmado "este prato magnífico, que é uma também uma recriação da série País, que a fábrica Miragaia celebrizou entre 1822 e 1850. Lá encontramos o casario com um edifício de cúpula no centro, envolto em arvoredo e a aba com bordadura de flores".
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(Prato com o motivo "País" ou "País de Miragaia", imitação ou recriação de fabrico"Miragaia", exibido na Fonte 7) |
Para se comparar com uma peça reconhecida como fabrico de Miragaia, aqui fica a imagem da mesma:
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(Travessa da série País de Miragaia do Museu Nacional de Soares dos Reis, inv 103 Cer) (exibida na Fonte 7) |
FONTES:
1) – “Faiança Portuguesa Séculos
XVIII-XIX”, Colecção Pereira de Sampaio, Editores ACD, 2008.
2) – “Cerâmica Portuguesa e Outros
Estudos”, de José Queirós, Organização, Apresentação, Notas e Adenda
Iconográfica de José Manuel Garcia e Orlando da Rocha Pinto, Editorial
Presença, 3ª Edição, Lisboa, 1987.
3) – “Faiança Portuguesa – Séculos XVIII-XIX”,
de Arthur de Sandão, Livraria Civilização, 2º Volume, Barcelos, 1985.
4) – “Cerâmica Artística Portuense dos
Séculos XVIII e XIX”, Vasco Valente, Livraria Fernando Machado – Porto,
5) – “Cerâmica Portuense – Evolução Empresarial
e Estruturas Edificadas”, Teresa Soeiro, Jorge Fernandes Lacerda, Silvestre
Lacerda, Joaquim Oliveira, Edição Portugália, Nova série, volume XVI, 1995.
6) – “Fábrica de Louça de Miragaia”, Museu
Nacional Soares dos Reis, Edição IMC, Lisboa, 2008.
7) - http://velhariasdoluis.blogspot.pt/2010/02/mais-uma-imitacao-da-serie-pais-de.html;